MEMÓRIA dEFICIENTE
O FATO Quando se fala em deficiência física, a imagem que geralmente vem à cabeça das pessoas comuns é a de alguém numa cadeira de rodas. Para mim, a ideia é tão complexa que mil imagens se formam em minha mente e muitas vezes tenho dificuldade de discernir o que é mesmo deficiência. Eu sou o que as pessoas denominam de deficiente física. Aos dois anos e sete meses, fui obrigada a fazer contato direto com esse assunto. Era, então, uma criança “sapeca”, que pulava de todos os lugares impossíveis: tábua de passar roupa, pia do banheiro, do guarda-roupa para a cama, tudo com direito a grandes galos na cabeça, muito choro e arrependimento. Pesares sentidos até que o esquecimento do tombo anterior fizesse com que eu me atirasse para o próximo desafio, o próximo salto, outro galo. Destino, descuido, excesso de energia, hiperatividade, subconsciente suicida. Não importa o nome que se dá ao fato, a realidade é que, após uma queda, com traumatismo craniano, foi diagnosticado que eu tive paralisia cerebral com perda parcial dos movimentos dos membros superior e inferior da lateral esquerda do corpo, tecnicamente chamada de hemiplergia. Um acidente que se pode chamar de inusitado, no mínimo, para não dizer patético, como costumam ser. Depois de despencar, literalmente, de muros e cumes do mobiliário doméstico, certo dia eu quis brincar de “gatinho” com minha avó materna. Infantes menos desastrados teriam andado de quatro pelo chão com muita segurança, mas a “espetacular voadora” decidiu que pular do chão para o colo da vovó amorosa seria mais criativo. Bastou uma panela queimando no fogão para que a boa senhora não percebesse a netinha saltar no vácuo e a deixasse desabar no azulejo da cozinha. Salmoura, faca em cima do galo, todos os “cuidados conhecidos da época” (ninguém em casa ainda sabia que gelo impedia coagulação sanguínea) não funcionaram como das outras vezes. Nada de espírito sádico, mas foi engraçado imaginar (já que não me recordo da cena) a vovozinha sem saber se acudia a neta ou salvava o molho de tomate para a macarronada de domingo em família. Mais um tombo, devem ter pensado todos. Levantei, parei de chorar e nada parecia diferente. A noite passou e tudo foi normal. Deveria, mas não foi. De manhã, minha mãe foi ao meu quarto para acordar a mim e a minha irmã e deve ter sido um choque ver a filha caçula sem poder se levantar, com a parte esquerda totalmente paralisada, inclusive a boca e os olhos. Minha mãe nunca me falou exatamente o que sentiu, pois com certeza prefere esquecer o trauma. Também não me lembro desses dias por ser muito criança, só sei que fui o centro das atenções da grande família ítalo-brasileira. Mobilizei todos os parentes. Meu pai, meus avós, minhas tias, as primas. Tutta la famiglia unida para orar por mim. Minha irmã, um ano e meio mais velha, teve de ficar na casa de uma tia-avó, portanto, também ela fez alguns sacrifícios por mim desde pequena. Foram 15 longos dias. Alguns lampejos de memória me vêm desse período no hospital, mas, por sorte, só os bons. Por exemplo, havia um enfermeiro chamado Tio Pepe que trazia uma vitrolinha vermelha com disquinho de história para crianças. Acho que já era uma espécie de “doutor da alegria”. Eu adorava quando ele chegava. Criança não guarda muita tristeza. Aos poucos, minha boca e olho voltaram ao normal. Sem nenhum dano exterior ou interior. Mas braço e perna ficaram com sequelas. Eu conseguia andar, mas tortinha; a mão endureceu e perdi os movimentos finos dos dedos. Saí do hospital para continuar a vida. Como seria? Pobre menina, que infelicidade! Era o fim do mundo?
Escrito por Patricia às 02:46 PM
[ ]
[ envie esta mensagem ]
[ link ]
|